sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Parindo Quimeras

Depois de muito tempo resistindo à ideia, finalmente cedi aos meus desejos e mudei o tema da minha monografia. Não foi uma mudança nem um pouco difícil, tendo em vista que o progresso no tema anterior era bem próximo de zero. Não era a preguiça de começar outra vez que me tolhia, mas sim a expectativa de como meu trabalho seria recebido. É muito legal dizer pra todo mundo que você está cagando para a opinião alheia e que só faz o que te dá vontade, mas acredito que, na maioria esmagadora das vezes, esse discurso só existe da boca para fora. Todo mundo busca aprovação, e a sede insaciável por "likes" no Facebook e em outras redes sociais é prova cabal disso. As coisas se complicam ainda mais no ambiente acadêmico, em meio a tantos egos exacerbados. Não vejo problema nenhum em se achar foda, principalmente se você passou pelo calvário graduação-mestrado-doutorado. Sim, cara, você é foda, parabéns. O que me irrita profundamente é querer aparecer pisando na cabeça de outra pessoa. Quem é bom de verdade não precisa rebaixar ninguém para se mostrar. Alguns cursos, me parece, são mais propensos a gerar esses babacas do que outros, e talvez História seja um desses. Acho que o fato de ter uma compreensão um pouco mais clara do passado e do processo de formação da História (ou pelo menos de achar que tem) faz o sujeito se achar dono da verdade, o que é uma grandessíssima bobagem. A "verdade" é um conceito em constante revisão, e varia amplamente de acordo com a época e o local em que se vive. Se até as ciências exatas, que teoricamente baseiam-se em fatos, sofrem mudanças constantes, por que as humanas, que se apoiam em evidências, seriam diferentes? Esses distintos senhores são os mais propensos a descartar sumariamente qualquer coisa que contrarie suas convicções ou até mesmo que simplesmente envolva áreas de conhecimento distintas da sua. Tive um professor que disse que pode-se criticar obras, mas não correntes metodológicas, pois todas têm algo a contribuir para a construção do conhecimento. Eu acredito nisso. Acredito que não é possível viver em harmonia com um mundo tão multifacetado sem aceitar formas de pensamento diferentes da sua. Isso não significa desistir das suas opiniões, mas encontrar um equilíbrio entre ter convicção nas suas próprias ideias e estar disposto a mudar de opinião. Muito daquela te torna um chato teimoso e insuportável, enquanto muito desta faz de você uma pessoa fraca e sem personalidade. Somando essa ideia à de que História é o estudo do Homem no Tempo, concluo que tudo que tenha sido produzido pela humanidade é digno de se tornar objeto de estudo, empregando-se o método adequado. Sendo assim, uma manifestação cultural como o RPG (o jogo, não a terapia, haha), é um tema perfeitamente válido. Ver colegas abordando temas semelhantes, como quadrinhos e jogos eletrônicos, me ajudou a ter a confiança necessária para finalmente dar o passo que eu hesitava a tanto tempo em dar. Houve, entretanto, um outro motivou que influenciou minha decisão pela mudança: tesão. Preciso ter tesão pelo que eu faço, pois não sou dessas pessoas super disciplinadas que levam a cabo qualquer tarefa a que se proponham. Queria muito ser, mas me conheço bem o bastante para saber que não é bem assim que as coisas funcionam. Jogo RPG desde os quinze anos e muito antes de sonhar em cursar História eu já elaborava minhas próprias teorias acerca do jogo. É empolgante pesquisar o que outras pessoas pensaram sobre o mesmo assunto e saber se elas chegaram às mesmas conclusões que eu. Empregando a História comparativa, que vai ser o eixo central do texto, tenho a desculpa perfeita para falar de coisas que me motivam, como jogos, literatura, cinema e arte. Basicamente, pretendo separar o RPG naquilo que eu acredito serem seus elementos essenciais (talvez eu mude de ideia após pesquisas mais aprofundadas) e traçar um paralelo entre as transformações sofridas por estes e por manifestações culturais (na falta de um termo melhor, por enquanto) que possuam alguma semelhança. Tudo muito lindo, até tropeçar na primeira pedra: bibliografia. A escolha de um tema tão heterodoxo é uma faca de dois gumes. Se por um lado eu tenho a oportunidade produzir um trabalho original acerca de um objeto pouco abordado, por outro são escassas autoridades que eu possa citar para conferir credibilidade ao texto. Durante nossa primeira conversa sobre o tema novo, minha orientadora me apoiou totalmente e demonstrou interesse genuíno no assunto. A parte engraçada é que eu tive que explicar para ela muitas coisas que um "leigo" (existem peritos?) em RPG não sabe. Ela me indicou um livro que, aparentemente, não tinha relação com o assunto, mas após ler a contracapa, entendi onde ela queria chegar. O conteúdo em si não era tão relevante, mas o método utilizado pelo autor para produzi-lo, sim. Então talvez essa seja a minha escapatória, utilizar livros que tenham aplicabilidade sem abordar diretamente o assunto RPG. Existem, é claro, livros mais específicos, mas são pouquíssimos. Encontrei um excelente, sem tradução para o português. Leio tranquilamente em inglês, e o fato de o livro ser da década de 1980 me preocupou mais que o idioma. O autor tratava de três jogos específicos, dois dos quais eu nunca havia ouvido falar. Acabei concluindo que poderia utilizá-lo tanto como fonte quanto como documento, pois é possível perceber a partir dele a visão que se tinha do RPG naquela época. Percebi que, nesse ritmo, serei pai de uma quimera de várias cabeças e, mesmo sendo apenas uma analogia, a semelhança com seres fictícios de mundos fantásticos me agradou bastante.