sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

RPG: jogar ou não jogar


Minha atitude com relação à popularização do RPG é um pouco paradoxal. Gosto de quando as pessoas se interessam pelo jogo, mas nem sempre tenho paciência para explicar as regras. Essa impaciência não é aleatória, ela é uma reação ao "perfil" de cada um. Isso acontece pois, por mais interessada que uma pessoa possa se mostrar, algumas (ou talvez muitas) simplesmente não tem o necessário para serem jogadores de verdade. Não digo isso de maneira excludente, como se "ser um jogador de verdade" fosse algo muito bom e portanto privilégio para poucos. Digo por que, a meu ver, a principal característica de um RPGista genuíno é o desapego. Desapego pelos próprios conceitos, não por falta de convicção neles, mas por consciência de que eles não vão sumir ou mudar por causa de um jogo de ficção. Desapego pela opinião alheia, pois o RPG (ainda) é rotulado de várias maneiras errôneas, variando das mais inócuas, como "infantil", às mais absurdas, como "satânico", essa última invariavelmente empregada por fanáticos de visão estreita. Desapego pelos próprios maneirismos, sem o qual o jogador acaba interpretando sempre o mesmo personagem - ele mesmo. Não que eu valorize tanto assim a interpretação, honestamente me preocupo mais com a mecânica do jogo, mas personagens repetitivos tendem a ser vazios e sem graça, sem "alma". E por último, mas não menos importante, desapego pelo próprio jogo. Jogadores desprovidos dessa característica levam o jogo mais a sério do que deveriam, contribuindo para a imagem de excêntricos que muitas pessoas lhes atribuem. Outro critério relevante para reconhecer alguém com potencial para ser um bom jogador é a motivação que o leva a participar de uma mesa. Alguns o fazem só para se enturmar. Isso não é errado, mas não pode ser o único motivo. Acho ótimo poder encontrar meus amigos durante uma sessão, mas se esse fosse o único motivo, seria melhor ir a um bar, restaurante ou ao cinema. É preciso gostar do jogo e interessar-se de verdade pelas regras e pela ambientação. Esse interesse varia muito de jogador para jogador, indo do obcecado por regras, que só se preocupa em criar personagens poderosos sem dar personalidade a eles, ao obcecado pela história, que acaba se envolvendo demais no enredo e esquecendo de se divertir. Aliás, não é apenas o RPG que exige esse equilíbrio entre compromisso e descontração. Qualquer jogo em grupo tem como objetivo principal o entretenimento, mas um participante sem bom senso pode estragar a diversão de todos na mesa. O RPG, entretanto, possui uma continuidade que o diferencia de outros jogos. Ao término de um jogo de tabuleiro, o peão volta para a caixa do mesmo jeito que estava quando saiu, assim como o tabuleiro, que será sempre o mesmo. Já o personagem, análogo ao peão, muda a cada sessão de jogo, para o bem ou para o mal, mas geralmente evoluindo. O cenário, ou seja, o ambiente onde a história se desenvolve, também é suscetível à influência dos jogadores, em contraste com o imutável tabuleiro. Daí provém o diferencial do RPG: a satisfação de ver seu personagem crescendo. Também é essa a origem de uma das maiores frustrações dentro do jogo: a perda de um personagem. Saber equilibrar satisfações e frustrações é o que permite tirar proveito máximo de cada sessão e da campanha como um todo.

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